80 anos de adoração e ódio
OCT 23, 2020
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Poderia aqui debruçar o meu tempo em fatos já tão consagrados quanto batidos de Pelé. Como os seus 1281 gols em 1383 jogos; como suas três Copas do Mundo conquistadas; como seus diversos títulos pelo Santos Futebol Clube; como o magistral drible no goleiro uruguaio Mazurkiewicz no Mundial de 70. Prefiro, no entanto, traçar algumas linhas mais pessoais sobre o maior jogador da história do futebol.

O meu primeiro contato foi com o mito, com a ideia irrefutável de que Pelé era tudo e muito mais, quando eu mergulhava mesmo sem entender absolutamente nada de nada em histórias que meu pai contava sobre ele. Passei minha infância compreendendo sua figura como um conto fadas, como uma estrutura intocável e dogmática. Aos 10, fui apresentado ao material mais concreto que se poderia ter na época, o documentário Pelé Eterno. Finalmente um imaginário foi preenchido com uma série de imagens, gols, jogadas e até anedotas apaixonantes que me arrebataram. Quando entendi (ou achei que entendi) o que Pelé fez em plena La Bombonera sob gritos racistas, só consegui concluir que se tratava de uma divindade.

Comecei a separar, conforme o meu amadurecimento, o craque da pessoa. Edson Arantes do Nascimento colecionou, além de gols, declarações infelizes e até mesmo constrangedoras. Suas respostas para qualquer tipo de pergunta sem um pingo de embasamento desgastou sua imagem e, por vezes, foi visto como uma figura que beirava o patético, principalmente fora da cobertura do esporte. Houve e ainda há uma necessidade do mundo em testá-lo nas mais diversas esferas, já que era inquestionável entre as quatro linhas.

Pelé acima de tudo é uma figura que as pessoas nunca vão sentir indiferença. Ele foi pioneiro na era do cancelamento, quando julgado por todo o Brasil por não querer assumir sua filha Sandra Regina Machado. Esses e outros apedrejamentos da sociedades, como explicou brilhantemente Sérgio Rodrigues em sua coluna de ontem na Folha, tem o nome de racismo. Uma pequena reflexão nos faz questionar o porquê de Cristiano Ronaldo permanecer com uma imagem ilesa, mesmo com acusação de estupro; ou o sentido da fama intocável de Ronaldo Fenômeno mesmo se aliando à escória da política; ou mesmo a simples ideia de que o Messi reina no futebol que “é pra valer”, não aquela coisa tosca dos anos 60.

As pessoas podem até preterir Pelé, sempre à procura de teses que questionam sua realeza. Confesso que particularmente tenho bastante empolgação com a trajetória de Messi e sinto uma vontade incrível de dizer que ele já é o maior de todos os tempos. Mas credito meu entusiasmo ao prazer enorme de ser contemporâneo do argentino e à melancolia desgraçada de não ter visto e nem nunca poder ver o brasileiro em sua plenitude. Afinal, passam se os anos e perguntam, Pelé ou Puskas, Pelé ou Cruijff, Pelé ou Zico, Pelé ou Maradona, Pelé ou Messi. Pelé ou qualquer um. Que venham outros questionadores do seu reinado, mas que eles não se esqueçam de pedir “bença” para poder pisar no olimpo.  

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